segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O design da treta



As coisas evoluem. Já é cliché de tanto ser verdade. O problema é que nem sempre evoluem bem…
Se olharmos por exemplo para os objectos do nosso quotidiano e depois virmos como eram há anos ou décadas, notamos diferenças. Boas e más.
Consideremos por exemplo os puxadores das portas que, apesar do nome, têm de se rodar antes de puxar. Ninguém duvida que o formato em alavanca, com o eixo de rotação na ponta dessa alavanca, é o mais cómodo para a mão e por isso mesmo mais eficaz. E a este modelo podemos apor-lhe modificações de estilo, mais ou menos floreados, mais ou menos comprido, mas não perderá a sua eficácia na função para que foi concebido. Mas há-os diferentes: posso dar o exemplo dos meus, que são assim a modos que um ovo metálico com o eixo de rotação a meio, uma espécie de variação dos puxadores redondos. Funciona? Claro que sim, mas não é tão eficiente como o formato, chamemos-lhe assim, original. Mas enquanto a forma não afecta grandemente a função, não vem daí grande mal ao mundo.
Falemos agora, por exemplo, de lavatórios de casa de banho. Lembram-se certamente dos modelos antigos, geralmente suspensos, branquinhos e em louça. Com lugar para pôr o sabonete e o que mais fosse preciso, embora exíguo. Este bicharoco evoluiu em várias direcções, maiores tamanhos do modelo base, linhas menos quadradas, encastrados numa bancada, etc. E aqui, as coisas iam pelo melhor caminho, porque uma bancada com o lavatório encastrado é a solução que nos dá mais espaço e funcionalidade para coisas como lavar a cara ou fazer a barba. Mas eis que chegaram os iluminados do design e resolveram desatar a desenhar lavatórios noutros materiais como metal (e aí também não há problema), mas que em termos de aspecto e funcionalidade não são diferentes das velhas bacias de lavatório que se usavam nas aldeias (e não só), suportadas por armação de ferro e sem sítio sequer para pôr a máquina de barbear, quanto mais sabonetes e coisas assim. As fotos são para verem do que estou a falar. Qualquer tia ou novo-rico se deve pelar por ter uma coisa daquelas nas suas casas de banho, porque está na moda. Não servir muito bem para aquilo que devia ser a sua função é secundário.
Quando se começa a sacrificar a funcionalidade ao design algo vai mal. Os objectos até podem ser bonitos, atraentes, mas não são funcionais, tornam-se apenas bibelôs, quiçá até arte, mas não servem para aquilo para que foram criados. O verdadeiro objectivo do design é dar novas formas ou aspecto aos objectos que nos preenchem a vida, mas mantendo ou aumentando a sua funcionalidade. E há tantos, tantos bons exemplos! É por isso que me chateiam estes modismos estéreis e mentecaptos, sendo este apenas um pequeno exemplo.
De que me serve um jarro com o qual tenho de fazer malabarismos para lhe pegar, ou uma cadeira tão incómoda que nem me consigo sentar nela?

Valter Rego, observador desassombrado