O design da treta

As coisas evoluem. Já é cliché de tanto ser verdade. O problema é que nem sempre evoluem bem…
Se olharmos por exemplo para os objectos do nosso quotidiano e depois virmos como eram há anos ou décadas, notamos diferenças. Boas e más.
Consideremos por exemplo os puxadores das portas que, apesar do nome, têm de se rodar antes de puxar. Ninguém duvida que o formato em alavanca, com o eixo de rotação na ponta dessa alavanca, é o mais cómodo para a mão e por isso mesmo mais eficaz. E a este modelo podemos apor-lhe modificações de estilo, mais ou menos floreados, mais ou menos comprido, mas não perderá a sua eficácia na função para que foi concebido. Mas há-os diferentes: posso dar o exemplo dos meus, que são assim a modos que um ovo metálico com o eixo de rotação a meio, uma espécie de variação dos puxadores redondos. Funciona? Claro que sim, mas não é tão eficiente como o formato, chamemos-lhe assim, original. Mas enquanto a forma não afecta grandemente a função, não vem daí grande mal ao mundo.
Falemos agora, por exemplo, de lavatórios de casa de banho. Lembram-se certamente dos modelos antigos, geralmente suspensos, branquinhos e em louça. Com lugar para pôr o sabonete e o que mais fosse preciso, embora exíguo. Este bicharoco evoluiu em várias direcções, maiores tamanhos do modelo base, linhas menos quadradas, encastrados numa bancada, etc. E aqui, as coisas iam pelo melhor caminho, porque uma bancada com o lavatório encastrado é a solução que nos dá mais espaço e funcionalidade para coisas como lavar a cara ou fazer a barba. Mas eis que chegaram os iluminados do design e resolveram desatar a desenhar lavatórios noutros materiais como metal (e aí também não há problema), mas que em termos de aspecto e funcionalidade não são diferentes das velhas bacias de lavatório que se usavam nas aldeias (e não só), suportadas por armação de ferro e sem sítio sequer para pôr a máquina de barbear, quanto mais sabonetes e coisas assim. As fotos são para verem do que estou a falar. Qualquer tia ou novo-rico se deve pelar por ter uma coisa daquelas nas suas casas de banho, porque está na moda. Não servir muito bem para aquilo que devia ser a sua função é secundário.
Quando se começa a sacrificar a funcionalidade ao design algo vai mal. Os objectos até podem ser bonitos, atraentes, mas não são funcionais, tornam-se apenas bibelôs, quiçá até arte, mas não servem para aquilo para que foram criados. O verdadeiro objectivo do design é dar novas formas ou aspecto aos objectos que nos preenchem a vida, mas mantendo ou aumentando a sua funcionalidade. E há tantos, tantos bons exemplos! É por isso que me chateiam estes modismos estéreis e mentecaptos, sendo este apenas um pequeno exemplo.
De que me serve um jarro com o qual tenho de fazer malabarismos para lhe pegar, ou uma cadeira tão incómoda que nem me consigo sentar nela?
Valter Rego, observador desassombrado
Se olharmos por exemplo para os objectos do nosso quotidiano e depois virmos como eram há anos ou décadas, notamos diferenças. Boas e más.
Consideremos por exemplo os puxadores das portas que, apesar do nome, têm de se rodar antes de puxar. Ninguém duvida que o formato em alavanca, com o eixo de rotação na ponta dessa alavanca, é o mais cómodo para a mão e por isso mesmo mais eficaz. E a este modelo podemos apor-lhe modificações de estilo, mais ou menos floreados, mais ou menos comprido, mas não perderá a sua eficácia na função para que foi concebido. Mas há-os diferentes: posso dar o exemplo dos meus, que são assim a modos que um ovo metálico com o eixo de rotação a meio, uma espécie de variação dos puxadores redondos. Funciona? Claro que sim, mas não é tão eficiente como o formato, chamemos-lhe assim, original. Mas enquanto a forma não afecta grandemente a função, não vem daí grande mal ao mundo.
Falemos agora, por exemplo, de lavatórios de casa de banho. Lembram-se certamente dos modelos antigos, geralmente suspensos, branquinhos e em louça. Com lugar para pôr o sabonete e o que mais fosse preciso, embora exíguo. Este bicharoco evoluiu em várias direcções, maiores tamanhos do modelo base, linhas menos quadradas, encastrados numa bancada, etc. E aqui, as coisas iam pelo melhor caminho, porque uma bancada com o lavatório encastrado é a solução que nos dá mais espaço e funcionalidade para coisas como lavar a cara ou fazer a barba. Mas eis que chegaram os iluminados do design e resolveram desatar a desenhar lavatórios noutros materiais como metal (e aí também não há problema), mas que em termos de aspecto e funcionalidade não são diferentes das velhas bacias de lavatório que se usavam nas aldeias (e não só), suportadas por armação de ferro e sem sítio sequer para pôr a máquina de barbear, quanto mais sabonetes e coisas assim. As fotos são para verem do que estou a falar. Qualquer tia ou novo-rico se deve pelar por ter uma coisa daquelas nas suas casas de banho, porque está na moda. Não servir muito bem para aquilo que devia ser a sua função é secundário.
Quando se começa a sacrificar a funcionalidade ao design algo vai mal. Os objectos até podem ser bonitos, atraentes, mas não são funcionais, tornam-se apenas bibelôs, quiçá até arte, mas não servem para aquilo para que foram criados. O verdadeiro objectivo do design é dar novas formas ou aspecto aos objectos que nos preenchem a vida, mas mantendo ou aumentando a sua funcionalidade. E há tantos, tantos bons exemplos! É por isso que me chateiam estes modismos estéreis e mentecaptos, sendo este apenas um pequeno exemplo.
De que me serve um jarro com o qual tenho de fazer malabarismos para lhe pegar, ou uma cadeira tão incómoda que nem me consigo sentar nela?
Valter Rego, observador desassombrado
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