terça-feira, 9 de março de 2004

O famigerado "direito à vida"

Alguém sem nome disse aqui muito ofendido que eu tinha feito um comentário no blog da Papoila acerca da questão do aborto. Não fiz, mas vou fazer agora aqui, para que não restem dúvidas.

Com coisas sérias não se brinca. Nada disso. Não se pode ofender os poderes instituídos, os puritanismos hipócritas tão típicos deste povo marcado a ferro e fogo por meio século de obscurantismo salazarista, a santa madre igreja com as suas missas, beatas e padrecos pedófilos, sua santidade o papa decrépito, a cair da tripeça, mas tentando aguentar firme e hirto, como diria o Alexandrino, para levar o seu pontificado até ao fim... dele próprio! Não se pode pôr em causa a moral (que moral?) católica e cristã (confesso que não sei muito bem qual é a diferença, mas também nunca me preocupei muito com isso) que impede que se faça uma lei do aborto justa e moderna, que acabe de uma vez por todas com a farsa dos abortos clandestinos que só prejudicam as próprias mulheres que os fazem, enquanto os defensores do “direito à vida” (mas não do “direito a uma vida digna”) continuam teimosamente a manter o seu autismo em relação aos dramas da vida real das pessoas reais (sim, muitas são aquelas que, infelizmente para elas próprias, são as tais quase analfabetas que não puderam aprender mais), que passam 4 horas por dia nos transportes como se fossem gado, que se levantam às 6 da manhã e chegam a casa sabe-se lá quando, e ainda têm que tratar do jantar, dos filhos, da lancheira para o dia seguinte para pouparem dinheiro no almoço e, no meio disto tudo, de vez em quando, ainda têm que arranjar um bocadinho de tempo para o sexo... se calhar sem grande vontade.

E depois, ou se esquecem do preservativo ou da pílula, e quando por azar, por descuido ou ignorância, surge uma gravidez indesejada, a sociedade retrógrada condena-as a terem que carregar com o peso de mais um filho para quem não há quarto em casa, não há cama, não há dinheiro... e às vezes nem paciência.

Mas os insuportáveis auto-intitulados "defensores da vida" a qualquer preço (por contraponto, segundo eles próprios, aos "defensores do aborto", como se alguém fosse defensor dum acto tão dramático) estão muito preocupados com a SUA própria moral e os SEUS princípios e querem impô-los aos outros e obrigá-los a comportarem-se como eles querem, estão muito preocupados com um projecto de vida mas estão-se nas tintas para a vida dos que já cá estão e, sobretudo, com a vida que aqueles que eles supostamente defendem hão-de vir a ter quando nascerem. Parece que, afinal, é mais importante o direito de quem vai nascer do que o direito dos que já nasceram. E depois vêm hipocritamente falar do "apoio à grávida", quando afinal o que era preciso, antes do mais, era ensinar as mulheres (e sobretudo as adolescentes) a não engravidar. Os "defensores da vida" não estão preocupados com a vida que uma mãe de 15 anos poderá ter e muito menos com a vida que poderá dar a um filho. Não estão preocupados que nasçam bebés que vão crescer num ambiente de miséria em bairros de lata, que desde pequeninos aprendem a roubar e quando crescem se tornam marginais. Não, tudo isto não preocupa os "defensores da vida". Por isso a expressão que usei no início: eles defendem a vida mas não o direito a ter uma vida digna.

Já não há pachorra para ouvir aquele tipo de argumentação, de um conjunto de moralistas que, de tão preocupados com os direitos de um feto, fazem tábua rasa dos direitos de cada um (nesta caso de cada uma) a decidir e dispor do seu próprio corpo. Sim, porque queiram ou não, o feto não é dono da mãe, mas o contrário.

Kroniketas, sempre kontra as tretas