quinta-feira, 10 de julho de 2008

Tentámo-zo demover

Com a pré-época futebolística a começar vive-se agora o folclore das contratações em catadupa anunciadas diariamente nos jornais, a maioria das quais acabam em nada. Para o Benfica já foi anunciada para aí uma dezena de jogadores que não vieram, tal como aconteceu com o treinador após a saída de Camacho. Mas para começar já levámos um murro, ao deixar sair para o Porto o uruguaio Rodriguez, um dos melhores jogadores no desastre que foi a época passada, cuja situação se deixou arrastar até este desfecho.
Não pude estar na assembleia-geral do Benfica da passada semana mas li nos jornais que acabou de forma tumultuosa, com o presidente Luís Filipe Vieira a ser vaiado e escoltado pela polícia. Devo dizer que não me surpreende o sucedido porque tem havido um acumular de erros de gestão que se metem pelos olhos dentro e cada vez são mais as vozes contestatárias ao presidente que foi eleito com mais de 90% dos votos em 2003. As sucessivas asneiras, acrescidas de um discurso errático e demagógico, estão a fazer perder a paciência aos benfiquistas. E agora que a época futebolística terminou com um balanço quase trágico, Luís Filipe Vieira, sempre tão pressuroso a sacudir a água do capote enquanto ataca os críticos perante as câmaras da televisão, não foi capaz de enfrentar os benfiquistas no local próprio e responder às questões com que foi confrontado. O seu estado de graça acabou e a sua posição é cada vez mais frágil perante a massa associativa, e a saída do treinador Camacho pode ter anunciado o princípio do seu fim.
Visto agora à distância e já com mais frieza, o processo que culminou na saída de José António Camacho do Benfica suscitou-me algumas reflexões acerca do que se tem passado no meu clube.

1 - O momento escolhido por Camacho para sair pode não ter sido inocente. Ao bater com a porta com a equipa ainda no 2º lugar do campeonato mas em plano inclinado, afundando-se de jogo para jogo, e antes do 2º jogo com o Getafe para a Taça Uefa, Camacho parece ter-se preocupado sobretudo em salvar a pele. Evitou ser eliminado (quiçá humilhado) no seu próprio país por uma equipa quase desconhecida, o que prejudicaria a sua imagem, e assim pode sempre invocar a seu favor que deixou a equipa “ainda” no 2º lugar e “ainda” a lutar na Europa. Todas as perdas subsequentes não lhe poderão assim ser imputadas directamente, mas a verdade é que o desastre final era apenas uma questão de tempo. Assim, Camacho saltou do barco a tempo de salvar a pele antes de este se afundar.

2 - Ao sair pelo seu próprio pé, Camacho foi amigo do presidente. Evitou ao Benfica o gasto da indemnização (que seria a segunda na mesma época, depois da rocambolesca saída de Fernando Santos à 1ª jornada) e evitou que, numa fase mais adiantada da época, a situação chagasse a um ponto de tal forma insustentável que obrigasse o presidente a despedi-lo e porventura arrastasse o próprio presidente na enxurrada. Mas como se vê agora, Vieira não passou incólume pela tempestade.

3 - Em todo este processo, o menos inocente é o próprio Luís Filipe Vieira. Foi ele o responsável pela contratação de Fernando Santos (um claro erro de “casting”, apesar do seu apregoado benfiquismo que ele se apressou a renegar quando foi para o Porto em 1999 e voltou a renegar na hora da saída), pela sua manutenção no início da época passada, depois duma época anterior sem qualquer sucesso, e pelo seu imediato despedimento logo após o começo do último campeonato. Se o treinador não servia, não devia ter começado a época. Se servia para começar, não devia sair após um jogo. Assim, construiu-se um plantel à volta dos planos dum treinador para depois ser orientado por outro treinador. Isto faz algum sentido?

4 - Da mesma forma, foi Vieira que recuperou o amigo Camacho, que era tido entre uma facção dos benfiquistas (nunca foi o meu caso) como uma espécie de salvador da pátria. O tempo e os factos encarregaram-se de demonstrar que os regressos raramente são bem sucedidos, porque o tempo não volta para trás e não se pode repetir a história. Na sua anterior passagem pelo clube, em que ganhou uma Taça de Portugal contra o Porto de Mourinho, Camacho nunca mostrou ser um treinador capaz de virar um jogo a partir do banco, não ter soluções alternativas para lançar durante o jogo, uma espécie de “plano B” para a equipa (não sei porquê, mas parece-me que já disse isto em relação a Scolari...). Se não o tinha antes, não seria agora que o teria, e foi isso que voltou a acontecer. Só que à segunda vez o discurso da garra e de “muchas ganas” não foi suficiente para pôr a equipa a praticar um futebol minimamente aceitável. E com uma equipa que foi das que pior jogaram em Portugal na época passada (até o último classificado União de Leiria foi à Luz jogar melhor que o Benfica), só o querer e a garra podem chegar para ir ganhando alguns jogos aqui e ali à beira do fim, mas não resultam sempre, e quando se pede algum conteúdo àquele futebol (isto é, quando se joga contra equipas de alguma qualidade) o fracasso é inevitável. E quando é o próprio treinador a dizer que não sabe as causas para tanta mediocridade e a pior época de sempre em casa, nem consegue encontrar solução para o problema, então o próprio treinador torna-se parte do problema. Logo, só resta uma saída, que é a sua própria saída. E de quem é a culpa, em última análise? Do presidente que o foi buscar.

5 - Quando Luís Filipe Vieira disse que foi apanhado de surpresa com a demissão de Camacho e que “tentámo-zo” demover da sua decisão, só uma de duas coisas podem ser verdade: ou estava a dourar a pílula para parecer que estava muito solidário com o treinador, ou então estava muito distraído e foi o único a ser apanhado de surpresa. A saída de Camacho era apenas uma questão de tempo e só pecou por tardia.

6 - De repente, Luís Filipe Vieira descobriu que era preciso ter alguém a fazer a ponte entra a equipa técnica e a direcção. Vai daí, foi buscar Rui Águas à prospecção e promoveu-o a uma espécie de “José Veiga com funções mitigadas”. Foi buscar Shéu e de secretário-técnico promoveu-o a treinador-adjunto de Chalana. Ou seja, já com mais de metade da época decorrida promoveu uma mini-revolução na estrutura da equipa de futebol. Pergunta-se: se aquela estrutura era necessária, porque é que só se lembrou disso em Março? Onde é que isto se viu? Pelo meio desta trapalhada monumental, foi-se cozendo o Rui Costa em lume brando, dando-lhe um papel do tipo-pescada (antes de ser já o era) nas suas novas-futuras funções de director-geral para o futebol. Com essa destemperada promoção de Rui Costa fora de tempo ainda antes de ele estar fora do campo, o “maestro” foi tendo a sua imagem desgastada ainda antes de assumir qualquer função efectiva, sujeitando-se a todo o tipo de especulações (certamente injustas e imerecidas) que chegaram ao ponto de lançar a suspeição de que ele teria contribuído para a saída de Camacho (até houve quem falasse no abraço ao treinador após o empate com o Sporting em Alvalade como uma espécie de “beijo de Judas”). Depois disso Rui Costa, a par do seu papel de melhor jogador do Benfica dentro do campo, ao que se disse já foi tendo um papel relevante fora dele na escolha do futuro treinador e na definição de toda a estrutura do futebol do clube. Alguém já viu isto acontecer nalgum clube com um jogador em funções? Não terá Rui Costa ficado algo “queimado” ainda antes de começar? E não correrá o risco de também ele vir a ser triturado pela engrenagem, como resultado da postura errática do presidente, se as coisas correrem mal daqui para a frente?

7 - Luís Filipe Vieira tem-se especializado em sacudir a água do capote e atirar as suas próprias responsabilidades para cima de outros, supostos inimigos não identificados dentro e fora do clube. Sabe-se lá porquê, após o fracasso da operação-Getafe veio, mais uma vez, disparar em todas as direcções, invocando o nome de Vale e Azevedo a propósito de coisa nenhuma. Curioso é o facto de ele próprio se parecer cada vez mais com Vale e Azevedo na sua ânsia de agitar a bandeira dos inimigos internos e externos. Se se lhe pode creditar a reabilitação financeira do clube bem como um peso decisivo para a construção do novo estádio, a verdade é que após a saída de José Veiga da SAD o futebol caiu no caos. Depois disso lançou acusações em todas as direcções sobre os oportunistas, os demagogos e sobre os descarregamentos de jogadores, como se ele não tivesse lá estado o tempo todo e não fosse com o seu consentimento que tal aconteceu. E invocar Vale e Azevedo para desviar as atenções de si próprio só pode servir para enganar papalvos, porque Vale e Azevedo foi corrido do clube (em boa hora) em 2000, já lá vão quase 8 anos, e Vieira já vai quase em 5 anos de presidente, além de mais 2 como director da SAD. A quem é que ele quer atribuir culpas? Quem é que ele quer enganar? Deste tipo de conversa já basta, já dei para esse peditório.

8 - O plantel para a época passada foi construído de forma completamente anárquica, sem qualquer critério perceptível. De repente havia 7 esquerdinos e nenhum extremo-direito! Gastaram-se 9 milhões de euros em Cardozo quando por muito menos se podia ter mantido Miccoli. Vendeu-se Simão por um valor inferior à cláusula de rescisão (agora até o Bosingwa rendeu o mesmo ao Porto). Deixou-se sair Karagounis (o único jogador que podia substituir Rui Costa como verdadeiro organizador de jogo) e Manuel Fernandes em cima da hora da pré-eliminatória da Liga dos Campeões. E depois o director financeiro disse que havia 20 milhões de euros para gastar em aquisições. Então porque deixaram sair Simão? No meio deste caos, entre Janeiro de 2007 e Janeiro de 2008 saíram do clube nada menos que Alcides, Anderson, Ricardo Rocha, Manuel Fernandes, Karagounis, Karyaka, Simão, Miccoli, Kikin Fonseca. Resultado desta anarquia: a pior época de sempre em casa, o maior número de empates de sempre, a primeira vez em que houve menos vitórias do que empates e derrotas juntos, 2ª pior classificação de sempre e falhado o acesso à Liga dos Campeões. E o que disse o presidente? Que a presença na Liga dos Campeões não era fundamental!

9 - Toda esta barafunda mostra um clube sem rumo, um barco à deriva, em que as decisões parecem ser tomadas casuisticamente ao sabor dos acontecimentos. Não se percebe qual é a estratégia, que caminho se pretende seguir, que objectivos se pretende alcançar e qual é o plano para lá chegar. Segue-se uma rota completamente errática que se vai mudando conforme os obstáculos que surgem no caminho, ao invés de se traçar um rumo bem definido e delinear uma estratégia clara para o seguir.

10 - Vieira diz aos benfiquistas para estarem tranquilos porque “no futuro” iremos ganhar muitas vezes. Só não diz quando será esse futuro, se é amanhã ou daqui a 10 anos. O discurso é sempre para amanhã. Também diz que sabe muito bem o que pretende para o Benfica. Pois então já agora, se não se importa, conviria explicar aos benfiquistas o que é, porque eu não sei o que ele pretende para o Benfica e duvido que alguém saiba. Será que é só vender kits de sócio, encher a boca com o “maior clube do mundo” e continuar a perder? Já em tempos disse que se quisesse podia ganhar 3 campeonatos seguidos mas estaria a prejudicar o clube. Devermos chegar à conclusão de que perdê-los é que está a beneficiar o clube? Porque é que não respondeu aos benfiquistas na assembleia-geral? Terá perdido o pio? E pelo meio disto surgem notícias que dão conta da nova intenção de acabar com as modalidades, que ainda nos vão conseguindo dar algumas alegrias fracamente compensatórias?

Eu estou tudo menos tranquilo... e estou farto deste presidente.

Kroniketas, benfiquista sempre kontra as tretas