segunda-feira, 2 de julho de 2018

A selecção dos objectivos mínimos e o futebol de grilhetas

Terminada a (bisonha) participação de Portugal no Mundial 2018, que se saldou por uma vitória em 4 jogos e 6-6 em golos, não sou daqueles que acham que devemos estar muito orgulhosos da nossa selecção, que não podemos criticar e que tudo o que é dito não passa de opiniões dos treinadores de bancada.

Tal como muitos jornalistas, também eu sou muito crítico da forma de jogar da selecção com Fernando Santos ao leme. Como muito bem disse David Borges no Primeiro Jornal da SIC Notícias de sábado, a vitória da selecção portuguesa no Europeu 2016 foi um milagre que resultou da conjugação dum conjunto de factores altamente improváveis, como a junção das equipas nas eliminatórias depois da fase de grupos. Parece que toda a gente se esqueceu que o caminho de Portugal até à final passou pelo encontro com Islândia, Áustria, Hungria, Croácia, Polónia e País de Gales, antes da final com a França, e nestes 6 jogos só ganhámos dois, apenas um nos 90 minutos. Milagre semelhante só no Europeu 2004 com a Grécia, que ainda jogava menos que nós, mas que também não deixava jogar, e mesmo assim ainda teve de vencer adversários como Portugal (duas vezes), a França e a República Checa. Portugal nem isso teve de fazer.

No sábado, durante o jogo com o Uruguai, cá em casa discutia-se o facto de eu “só dizer mal” (frase também muito repetida nas redes sociais), não realçando o esforço dos jogadores. Eu gostaria de dizer bem, mas não sei de quê. Não estão em causa os jogadores, o seu esforço e o seu empenho na representação da selecção: está a causa a qualidade de jogo da equipa, que foi “abaixo de cão”, ainda pior que no Europeu.

Não é admissível que uma equipa que ostenta o título de campeão da Europa, que está há anos entre os 10 primeiros do ranking da FIFA e que se apresenta como putativo candidato a campeão do mundo jogue tão pouco. Não é admissível que sejamos massacrados por Marrocos durante meio jogo, que foi absolutamente deprimente. Cheguei a ter vontade de desligar a televisão, tão mau era o que estava a ver. Da mesma forma não é admissível que se empate com o Irão e se esteja à beira de perder, independentemente do penalty bem ou mal assinalado contra Portugal. Se aquele penalty aconteceu quando aconteceu foi porque Portugal entregou o jogo e pôs-se a jeito. E não serve de desculpa o empate, à mesma hora, de Espanha com Marrocos, porque esse resultado só nos obrigaria ainda mais a ganhar aquele grupo.

O futebolzinho da nossa selecção parece um futebol de grilhetas, como se os jogadores tivessem os pés presos e não conseguissem correr. A defesa funciona a gasóleo e o meio-campo faz-que-anda-mas-não-anda. Não é concebível ir para uma competição destas com defesas centrais com uma média de 35 anos! Os 3 golos sofridos contra a Espanha resultaram do imobilismo da nossa defesa, com os jogadores a ver. E os dois golos contra o Uruguai surgiram com Cavani sozinho a surgir nas laterais, sem ninguém o importunar.

E se os centrais já deviam jogar de cadeirinha, os laterais não estiveram melhor. Raphael Guerreiro foi um corredor aberto em todos os jogos, e nunca ninguém percebeu que era preciso mais alguém para fechar aquele lado. Não por acaso, Marrocos e o Irão carregaram naquele flanco sem dó nem piedade, e Cavani surgiu sozinho nas suas costas aos 7 minutos de jogo.

Quanto à lateral direita, fica por perceber como é que o defesa direito do Inter (João Cancelo), que vai para campeã Juventus por 40 M de euros, e o defesa direito do Barcelona (Nelson Semedo) não têm lugar nesta selecção, e o titular é o defesa direito do poderoso Southampton... Quando a Ricardo Pereira, faz uma época no Porto e já tem direito a ir ao Mundial depois de ir para o Leicester. E quando jogou, lá esteve Cavani outra vez sozinho no lugar onde ele devia estar.

Relativamente ao meio-campo, William joga a duas velocidades, devagar e devagarinho. João Moutinho já foi mais já não é. Não sei se repararam, mas contra o Irão a selecção deixou de jogar quando Moutinho entrou, mesmo depois de ter estado com uma gripe. Provavelmente só deixará de jogar com uma pneumonia. Enquanto isso, Adrien, Bruno Fernandes (provavelmente o melhor médio português da actualidade), Gelson e Bernardo Silva andaram perdidos e passaram ao lado do jogo, a não ser quando Bernardo Silva passou a jogar no lugar que devia depois de estarmos a perder por 2-1 com o Uruguai. E Manuel Fernandes, que foi recuperado graças a uma grande época no Lokomotiv e tem um bom remate de meia-distância, entrou na equipa aos 84 minutos do último jogo já em desespero de causa.

Face a tudo isto, o ataque foi bola para o Ronaldo e fé em Deus. Ronaldo que no último jogo andou sempre longe da baliza, vá lá saber-se porquê. O problema é que Ronaldo não pode resolver sempre tudo sozinho.

O balanço desta equipa é que temos um conjunto de talentos à solta, melhor que há dois anos, a que o treinador põe grilhetas e não deixa jogar o que sabem. É sintomático o esquema mostrado na Tribuna Expresso após o jogo com o Irão, em que num momento de início de ataque Portugal tem 7 jogadores no meio-campo atrás da linha da bola, para apenas um iraniano. E dizia-se que assim era impossível atacar com qualidade. Como se viu.

Fernando Santos tem razão: cumprimos os mínimos. Porque temos um seleccionador com objectivos mínimos, com ambição mínima, com um futebolzinho mínimo porque tem uma capacidade mínima. Ficou provado agora como já tinha ficado provado em 2017 na Taça das Confederações, na meia-final com o Chile, que os milagres só acontecem de vez em quando, quando os deuses estão loucos ou distraídos. E também não colhe o argumento de que não interessa jogar bem e perder, o que interessa é ganhar, porque há uma verdade insofismável em todas as competições: normalmente ganham os melhores, e quando se joga bem está-se sempre mais perto de ganhar do que quando se joga mal. Como exuberantemente provou a França contra a Argentina, com uma exibição absolutamente demolidora na 2ª parte e um golo (o 4º) de compêndio, uma lição de bem jogar, com 5 passes para a frente desde o guarda-redes até ao golo.

Há 4 hipóteses num jogo: jogar bem e ganhar; jogar bem e perder; jogar mal e ganhar; jogar mal e perder.

Queixam-se os resultadistas de que andámos muitos anos a jogar bem e perder, a ter só vitórias morais. Pois agora jogamos mal e ganhámos uma vez a jogar mal, e depois disso continuamos a jogar mal e perdemos. O único factor em comum é o jogar mal. A história demonstra que jogar bem e ganhar andam muito mais associadas do que jogar mal e ganhar. E quando a Portugal, até o Senegal, a Nigéria e o Japão jogam melhor que nós.

Por isso, não, não obrigado a Portugal. Obrigado aos jogadores por terem feito o que os deixaram fazer, mas nada mais que isso.
E a terminar, conviria lembrar que no Mundial 2010, com Carlos Queiroz, Portugal chegou à mesma fase de agora e foi eliminado pela Espanha, campeã europeia em título e que se viria a sagrar campeã do mundo e novamente campeã europeia em 2012, e ainda hoje Queiroz é crucificado por essa campanha. Agora fizemos o mesmo e parece que foi uma campanha espectacular!

O engenheiro diz que tem 4 cães? Se calhar devia comprar uma matilha!

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