segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Roger Federer, o homem que se reinventa


Notável, incrível, extraterrestre, sobre-humano, melhor tenista de todos os tempos, Deus do ténis... Swiss Maestro, Fed-Ex, Federer Express... Já foram gastos quase todos os títulos para classificar Roger Federer.

Este domingo, aos 35 anos e 174 dias, e depois de 6 meses de paragem, conquistou o 18º título do Grand Slam e 5º na Austrália, contra o seu carrasco de sempre, Rafael Nadal.

10 anos depois de o ter vencido apenas pela 2ª vez numa final de um major (Wimbledon 2007), sendo entretanto derrotado em 6 destas finais;
5 anos depois do seu último título num major (Wimbledon 2012);
7 anos depois do seu último título na Austrália (Melbourne 2010);
8 anos depois de ter perdido a mesa final com o mesmo Nadal (Melbourne 2009);
8 anos depois do seu único título em Roland Garros (2009);
9 anos depois do seu último título no US Open (2008);
14 anos depois do seu primeiro título do Grand Slam (Wimbledon 2003);
4 anos e 3 meses depois de ter passado pela última vez pelo 1º lugar do ranking ATP (Novembro 2012) e estabelecido o record de 302 semanas como nº 1.

Pior que toda esta distância temporal para os seus maiores êxitos, era a estatística no confronto directo antes da final deste domingo, amplamente favorável a Nadal em todos os indicadores: Nadal ganhou em média 2 em cada 3 jogos contra Federer.

23-11 em todos os confrontos;
14-7 em finais;
9-2 em torneios do Grand Slam;
6-2 em finais do Grand Slam (Federer venceu Nadal numa eliminatória);
3-0 no Open da Austrália;
11-4 em encontros à melhor de 5 sets.

E, no entanto, ontem viu-se um Federer que conseguiu exorcizar os seus fantasmas e vencer Nadal nos capítulos onde era sistematicamente superado: agressividade, resistência e, acima de tudo, força mental. Vi muitas vezes Roger ser vencido por Rafa quando estava por cima, essencialmente por bloqueio mental que o levava a cometer uma catadupa de erros não forçados. Ontem voltou a cometer muitos mais, mas superiorizou-se em quase todos os indicadores do jogo e disparou uma barragem de ases e winners que acabaram por fazer a diferença. E, noutros tempos, a perder por 1-3 no 5º set, estaria fatalmente derrotado. Desta vez, não só conseguiu fazer o contra-break para igualar a 3-3 como logo de seguida conseguiu outro break para ficar a ganhar por 5-3 e servir para ganhar o título.

Com isto alargou a distância em títulos do Grand Slam para 18-14, quando estava em risco de vê-la reduzida para 17-15.

Ao mesmo tempo, tornou-se o primeiro jogador a vencer 3 torneios do Grand Slam pelo menos por 5 vezes (Austrália 5, Wimbledon 7, US Open 5).

Muitos lhe fizeram já o funeral, muitos previram que não voltaria a ganhar um major. Eu próprio, depois da época desastrosa de 2013, em que foi eliminado de Wimbledon por um jogador fora do top-100, achei que era melhor ele parar para não manchar o seu brilhante curriculum.

E no entanto, como diz John McEnroe, o homem não acaba e movimenta-se como se tivesse feito o relógio suíço andar 10 anos para trás.

O ténis agradece. Para os amantes da modalidade, ver reeditado um dos maiores duelos da história foi um privilégio que não se podia desperdiçar. É ver a história a acontecer diante dos nossos olhos. Ontem escreveu-se um novo e, porventura, inesperado capítulo.

Mas foi bonito e foi merecido. E foi, sobretudo, gratificante ver como estes dois monstros do ténis se admiram e se respeitam. Os seus discursos foram notáveis de desportivismo e admiração um pelo outro (a não ser que sejam dois grandes hipócritas...). Deviam servir de exemplo para outras modalidades. Os agentes do futebol cá do burgo deviam pôr os olhos (e os ouvidos) no comportamento destes dois grandes campeões, que se engrandecem mutuamente e engrandecem a modalidade com as atitudes que têm tanto dentro como fora do campo. Ali, quem vai para emporcalhar a modalidade não tem futuro.

Kroniketas em modo de ténis televisivo