quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Acordo ortográfico - a discórdia acesa

O blog “Pérola de cultura” relança o desafio sobre o acordo ortográfico e pede opiniões. Já tivemos oportunidade de escrever sobre o assunto aqui nas KT, e aproveito este tema para manter alguma actividade antes que isto feche por completo.
Eu estou em desacordo com o acordo e recuso-me a subscrever qualquer das alterações feitas, por várias ordens de razões:
1 – Isto não é um acordo de unificação, é uma capitulação total perante os brasileiros. Alguém sabe de alguma palavra que os brasileiros passem a escrever como nós?
2 – A língua não é estática e evolui, até aí estamos todos de acordo. Mas uma coisa é evoluir naturalmente, por assimilação de novos termos que são incorporados pelo uso (o que acontece muito com as novas tecnologias, em que o “clique” do rato já é usado com naturalidade porque se vulgarizou na informática), ou por um aportuguesamento da grafia de certos estrangeirismos (não me choca que o abat-jour passe a abajur); outra coisa é meter alterações a martelo porque um grupo de sábios, do alto da sua sapiência resolveu que “facto” é igual a “fato” e que “acto” é igual a “ato”, ao mesmo tempo que considera que “bué” já faz parte da língua. Olha, merda também e não a encontro no meu dicionário.
3 – Por muitas unificações que queiram fazer, o que nos separa do brasileiro não é a grafia, é a semântica, porque um eléctrico (ou elétrico) nunca será um bonde e um autocarro nunca será um ónibus. E é um facto que eu às vezes vou trabalhar de fato.
4 – O argumento do número de falantes não colhe. A Inglaterra também tem menos falantes que os EUA e (como disse o professor de inglês) não consta que tenha acordo algum com os americanos. E ninguém deixa de perceber que “colour” é igual a “color” e que “centre” é igual a “center”, e que se pronunciam da mesma forma. E o inglês é só a língua mais espalhada pelo mundo.
5 – Quanto às consoantes mudas, aí até sou capaz de compreender, porque apesar da sua função de abrir a vogal seguinte, a pronúncia não terá grande tendência a alterar-se. Essa ainda será a mudança que menos me incomoda, apesar de tornar difícil distinguir um “corrector” ortográfico dum “corretor” da bolsa de valores. O que já não faz sentido é uma série de alterações que, longe de trazerem algum ganho, só vêm lançar a confusão, nomeadamente ao nível dos hífenes. Qual é a vantagem de transformar mini-saia em minissaia? E director-geral em director geral? Isto é que é o caos, porque há hífenes que desaparecem e as palavras separam-se, enquanto noutros casos dobram a vogal.
6 – Mas a grande aberração ainda vem a seguir: é que ao admitir a escrita de acordo com a pronúncia entra-se no domínio do vale tudo. Se cada um escreve como fala, então tudo é legítimo, até um portuense escrever que “eu beijo o cu daquela baca” enquanto um lisboeta escreve “eu vejo o cu daquela vaca”! Pior que isso, com a obsessão de fazer cair consoantes mudas, a “uniformização” cria situações de dupla grafia quando antes e grafia era igual. Como os brasileiros lêem o “c” de “perspectiva” ficam com ele. Como os portugueses não o lêem o “c” cai, e assim se tornou diferente o que antes era igual.
A verdade é que perante este forrobodó, eu cada vez sei escrever pior em vez de melhor, porque já não se sabe quais são as regras. E para terminar, ainda não consegui perceber que benefícios efecitvos é que advêm para Portugal deste malfadado acordo. Se alguém beneficia, era bom que se soubesse. Parece que o único é o de uns senhores muito importantes e muito inteligentes ficarem babados a admirar o brilhante trabalho que produziram mas que ninguém lhes pediu.

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